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sexta-feira, 10 de julho de 2009

'Não há cidadania sem livro', diz Milton Hatoum


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Autora: Lísia Gusmão.
Fonte: Empresa Brasileira de Comunicação. Data: 3/7/2009.
Para o escritor Milton Hatoum, não há cidadania sem livro. A declaração foi dada em entrevista à Agência Brasil, durante a Flip, quando participou do debate ao lado de Chico Buarque na mesa literária Sequências Brasileiras. Em comum, os dois autores analisam a realidade brasileira em seus mais recentes livros. Em Leite Derramado, Chico Buarque repassa a história do Brasil a partir das memórias do narrador, que, próximo de morrer, desfia passagens de apogeu e declínio de sua família em quatro gerações. Já Hatoum ambienta A cidade ilhada em Manaus, palco também de Dois irmãos, que explora a presença árabe na Amazônia.
No café ao lado da Tenda dos Autores, Hatoum cobrou mudanças estruturais na política brasileira e o engajamento das prefeituras nas políticas voltadas à educação. "Eu, que ando muito por esse país, observo que os livros do Ministério da Educação estão chegando às escolas e às bibliotecas. Isso é um alento para quem escreve, para quem dá tanta importância a leitura, disse. Mas política pública tem que ser feita no miúdo, nos municípios."Segundo ele, as políticas públicas não devem "obrigar ninguém a ler". "Mas é um absurdo, para não dizer um crime, você não permitir o acesso à leitura a milhões de crianças pobres no Brasil. A política do livro deve ser uma prioridade de qualquer governo. Não há cidadania sem leitura", disse.
Hatoum cobrou ainda a valorização dos professores e defendeu a implantação de uma política de salários para a categoria a partir de 2010. "É uma vergonha que professores ganhem menos do que um salário mínimo. Qualquer país desenvolvido investiu muito na educação, no livro, na formação dos professores, nos salários dos professores."

terça-feira, 7 de julho de 2009

Há vida literária na web, dizem escritores


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Autora: Lísia Gusmão. Data: 04/07/2009.
Fonte: Agência Brasil.
Paraty (RJ) - As casas editoriais estão de olho na produção literária postada na internet, alerta a professora Beatriz Resende, doutora em literatura comparada. Já o escritor pernambucano Marcelino Freire faz uma veemente defesa do uso das novas tecnologias, como a rede social Twitter, para aproximar os jovens da literatura.
O fenômeno da produção postada na web esteve presente nas rodas de escritores e leitores da 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Até Chico Buarque, na mesa Sequências Brasileiras, que agitou a festa na noite de sexta-feira (3), confessou que recorre ao Google nas suas pesquisas.
Autora de livros sobre crítica cultural, Beatriz Resende considera a grande novidade do universo literário o uso da internet para divulgar as obras de escritores que estão dando os primeiros passos. “A novidade é essa nova vida literária, essa circulação de autores, o interesse das editoras por uma literatura que é postada, colocada na web”, afirmou Beatriz, convidada para mediar a mesa O Avesso do Realismo, palco do encontro entre o afegão Atiq Rahimi e o brasileiro Bernardo Carvalho ontem (3).
Ela cita como exemplo emblemático desse novo fenômeno o caso da jovem Ana Paula Maia, autora de três romances, entre eles A Guerra dos Bastardos. “Ela publicou o primeiro romance, que teve boa recepção, mas não conseguiu editora para o segundo romance. Escreveu o terceiro e nada. Aí, decidiu colocar na web, em capítulos. E a coisa funcionou, começou a chamar a atenção. Pouco depois, Ana Paula publicou os dois romances, acrescidos de uma novela genial. É um exemplo de como usar essas novas mídias a seu favor.”
A professora acrescentou que os recursos oferecidos pela internet estão nas aulas de crítica teatral em uma universidade do Rio de Janeiro. “Fizemos um blog com a produção dos alunos. Foi engraçado, porque, logo no início, houve uma certa resistência. Não era, evidentemente, um problema com a tecnologia. Era um problema com se mostrar, se revelar. Se você coloca na internet, no dia seguinte pode estar no Google, no mundo. No fim do semestre, imprimi toda a produção do blog e levei para a turma. Foi uma surpresa muito interessante ver que a produção também se sustentava em papel”, afirmou.
O blog é um dos instrumentos de trabalho do escritor Marcelino Freire, autor de Balé Ralé e Angu de Sangue. E, por meio do Twitter, adotado recentemente, quer postar 1.001 “contos nanicos”. “Acho o Twitter uma mania de perseguição, uma coisa esquizofrênica. Você está me seguindo, eu estou te seguindo. Mas quem está te seguindo, você não conhece, nunca viu na vida. Isso é uma neurose. Mas o que vou fazer com isso? Literatura. Onde ela, literatura, puder estar, seja no celular, no Twitter, acho ótimo”, diverte-se.
A publicação de pequenos textos literários é frequente na vida de Freire. Em 2004, inspirado na antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, de Ítalo Moriconi, o pernambucano publicou o livro Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Para isso, convidou 100 autores, como Dalton Trevisan, Millôr Fernandes, Lygia Fagundes Telles, que escreveram contos com até 50 letras.
Para Marcelino Freire, as novas mídias podem levar grandes nomes da literatura às crianças. “Machado de Assis poderia estar no Twitter. De que forma? Dom Casmurro, que tem capítulos curtíssimos. Mas tem que mostrar que literatura é vida. Vou falar de Machado de Assis, do Rio de Janeiro daquela época, mas vou trazer também um autor contemporâneo para 'conversar' com Machado sobre neuroses e angústias. E literatura precisa ser divertida. Não pode ser aquela chatice reinante”, advertiu, com a língua sempre afiada.
“Falam que a internet tem muito lixo. Tem, porque nós produzimos lixo. É um espelho do que nós somos. Vamos fazer com que essa ferramenta seja poderosa na transformação das pessoas”, defendeu.
Para a professora Beatriz Resende, não há, por parte do jovem, uma espécie de “recusa da literatura”. O que há, segundo ela, é uma “simultaneidade de ações”, o que traz uma nova percepção da literatura pela juventude.
“Ler um romance implica recolhimento. Meu apego ao livro vem de uma infância solitária, de um início de juventude solitário. Então, o livro era meu grande companheiro. Isso não acontece mais. O jovem não fica mais solitário. Ele pode estar sozinho, trancado no quarto, mas está navegando na web. Mas sou uma otimista. Haverá uma nova percepção da literatura por parte dos jovens”, prevê.

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