sábado, 27 de março de 2010

O acervo digital é mais caro do que em papel




Fonte: O Estado de S. Paulo. Data: 17/3/2010.

URL: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100317/not_imp525296,0.php
Fonte original: The New York Times. Autora: Patricia Cohen.

Em meio ao material de arquivo de Salman Rushdie em exposição na
Universidade Emory, em Atlanta, há capas ilustradas de seus livros,
diários escritos à mão e quatro computadores Apple (um deles arruinado
por um incidente com uma coca-cola). Os 18 gigabytes de dados contidos
neles parecem prometer aos futuros biógrafos e estudiosos de literatura
um verdadeiro país das maravilhas digital: vastos arquivos organizados
que podem ser facilmente pesquisados em poucos cliques.

Mas, como a maioria dos paraísos rushdieanos, esse idílio digital tem
seu próprio conjunto de problemas. Como as bibliotecas e os arquivos de
pesquisa estão descobrindo, o material "nascido digital" - criado
inicialmente no formato eletrônico - é muito mais difícil e caro de ser
preservado do que se supunha.

Rascunhos, correspondência e comentários editoriais produzidos
eletronicamente, com os quais poetas contemporâneos, romancistas e
autores de não-ficção parecem se preocupar tanto, são apenas uma série
de dígitos - os binários 0 e 1 - gravados em disquetes, CDs e discos
rígidos, que se estragam muito mais rápido do que o papel. Mesmo que
essas mídias de armazenamento sobrevivam, o implacável avanço da
tecnologia pode significar que equipamentos e softwares mais antigos
deixem de existir. Imagine ter um disco de vinil, mas nenhuma vitrola.

A luta contra a extinção digital passa por perguntas difíceis: como
definir o que deve ser preservado, como deve ser essa preservação, e
como tornar esse material disponível? "Não há dúvida de que essas
questões têm tirado o sono de muita gente", disse Anne Van Camp,
diretora dos Arquivos da Instituição Smithsonian e membro de uma
força-tarefa que estuda os aspectos econômicos da preservação digital.

Metodologia. Apesar de os computadores serem usados cotidianamente há
duas décadas, os arquivos de escritores estão apenas começando a chegar
aos acervos. Na semana passada, o Centro Harry Ransom, da Universidade
do Texas, de Austin, anunciou a compra do arquivo de David Foster
Wallace, que cometeu suicídio em 2008. A Emory montou em fevereiro uma
exposição com seu acervo de Rushdie e, no ano passado, pouco antes de
morrer, John Updike enviou 50 disquetes de 5,25 polegadas à Biblioteca
Houghton, em Harvard.

Leslie Morris, curadora da Biblioteca Houghton, disse, "Ainda não
desenvolvemos uma metodologia" para processar esse material.
"Armazenamos os disquetes em nossa seção climatizada, e torcemos para
que Harvard defina logo alguns procedimentos universais."

Entre os desafios estão a contratação de arquivistas familiarizados com
a informática; a aquisição do equipamento e da experiência necessários
para decifrar, transferir e obter acesso aos dados armazenados em
formatos tecnológicos obsoletos; o desenvolvimento de um sistema de
proteção contra alterações e apagamento acidentais; e a definição de
como organizar o acesso de forma a torná-lo mais útil.

Na Biblioteca Emory, os computadores de Rushdie confrontaram os
arquivistas com um dilema: apenas copiar o conteúdo dos arquivos ou
tentar também recuperar a aparência e a organização dele.

Por causa do interesse especial da Emory no impacto da tecnologia no
processo criativo, a diretora interina do Acervo de Arquivos Manuscritos
e Livros Raros, Naomi Nelson, disse que os arquivistas decidiram recriar
a experiência e o ambiente eletrônico original.

Na exposição, visitantes podem acessar um computador e ver exatamente a
mesma tela para a qual Rushdie olhava, realizar buscas nos arquivos dele
assim como o autor fazia, e descobrir quais os aplicativos que ele
costumava usar. "Não conheço nenhum outro lugar no mundo onde seja
possível acessar por meio da emulação um acervo nascido digital", diz
Erika Farr, diretora da Biblioteca Robert W. Woodruff, em Emory.

2 Comentários:

Eduardo Amancio on 02 abril, 2010 disse...

Esse é um post que me anima e mais uma vez prova que as ditas tecnologias "obsoletas" e as mais avaçadas devem andar lado a lado. Além de ser mais caro de se armazenar as informaçãos digitais são muito mais fáceis de se perder, de se dissipar e não mais se encontrar nesse vasto universo de informação que apenas em um pen drive podemos encontrar. Uma ótima questão levantada. Parabéns professor Hamilton!

Murilo Cunha on 05 abril, 2010 disse...

Eduardo:
Obrigado pela sua mensagem. O livro impresso ainda tem um importante papel a exercer. Entretanto, é inegável o crescimento do livro eletrônico ou digital. Creio que dentro de uns anos já estará resolvida a padronização dos leitores desse tipo de livro. A partir daí o crescimento dessa nova tecnologia será irreversível! Mas não vejo a "morte" do livro impresso, acho que os dois formatos irão coexistir no mercado.
Murilo Cunha

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