Diretor do complexo de bibliotecas da Universidade Harvard [Robert Darnton] comenta o lançamento da
, em abri [de 2013], que vai
pôr em rede o acervo em domínio público de dezenas de bibliotecas acadêmicas.
Criado como antítese do Google Books, o projeto da DPLA é financiado por
recursos privados.
O iluminismo é o principal tema de estudo do historiador americano Robert
Darnton, 73, autor de vários títulos sobre como a difusão do conhecimento
alimentou revoluções no século 18. É de certa forma inspirado nos ideais dos
enciclopedistas que Darnton comanda ele também uma revolução.
Como diretor do imenso complexo de bibliotecas da Universidade Harvard, ele
encabeça a criação da
DPLA (Digital Public Library of America, sigla para
biblioteca pública digital americana), que a partir de abril [de 2013] vai reunir e
compartilhar gratuitamente na internet o acervo e obras de milhares de
bibliotecas e universidades do país.
A DPLA é a resposta de Darnton e da academia à violação de direitos autorais
representada pelo Google Books, que lucra com os livros repassados para a rede.
"Vamos fazer diferente", diz Darnton, que vê a biblioteca digital como o seu
projeto mais ambicioso, algo a ser feito "por séculos".
O debate em torno do livro na era das tecnologias digitais foi tema de "A
Questão dos Livros", coletânea de textos que lançou no Brasil em 2010, pela
Companhia das Letras. Pela mesma editora, lançou no ano passado "O Diabo na Água
Benta", no qual aborda outro assunto importante em sua produção intelectual, o
jornalismo - em especial, a imprensa clandestina que veiculava insultos e
difamações mas também denúncias políticas de um e outro lado do canal da Mancha
no século 18.
Irmão e filho de jornalistas, diz manter o encanto pelo ofício, que chegou a
exercer nos anos 1960: foi repórter de polícia do "The New York Times" e teve
como colega de editoria um dos maiores jornalistas americanos vivos, Gay Talese
- de quem diz não ser muito fã.
Em seu escritório na Wadsworth House, no campus de Harvard, onde recebeu a
Folha para esta entrevista, Darnton comentou algumas obras que retratam a
história do jornalismo nos Estados Unidos. Seu pai, Byron Darnton, é citado em
várias delas. Ao cobrir para o "New York Times" a Segunda Guerra Mundial
(1939-45) no Pacífico, Byron foi atingido num bombardeio e tornou-se um dos
primeiros jornalistas americanos mortos no conflito.
Folha - Como estão os preparativos para o lançamento da DPLA, que o sr.
anunciou para abril?Robert Darnton - Não queremos gerar falsas
expectativas: de início não teremos todo o material digitalizado. Levará tempo.
Teremos 2 milhões de livros liberados pelo domínio público. Vamos começar
modestamente. Espero que cresça mais e mais. É um trabalho que deve ser feito
por séculos.
O início envolve a digitalização de coleções especiais,
principalmente as de Harvard. Temos uma enorme quantidade delas nas 73
bibliotecas da universidade, são mais de 18 milhões de volumes. Estamos
escaneando livros, manuscritos e fotografias de diferentes assuntos.
Há
acervos sobre mulheres, imigrações e obras sobre doenças epidêmicas, por
exemplo; e há coleções históricas importantes, sobre a era medieval e sobre
fotografia, com imagens da Lua e da escravidão, como fotos de escravos que
nasceram na África e foram levados para os EUA.
Qual o maior problema que estão encontrando?Montamos um escritório
para discutir a questão legal e convidamos pessoas de diferentes instituições,
de várias partes do país, que costumam enfrentar o mesmo tipo de problema: o
óbvio, dinheiro, além de dúvidas relativas à tecnologia, à organização, ao
conteúdo digitalizado e ao público que vai utilizar tudo isso. Mas a questão
legal é a mais importante. Não podemos violar os direitos autorais.
A ideia é que a DPLA seja a antítese do Google Books?Exatamente. O
Google tenta fazer a mesma coisa, mas sob a lógica do lucro. O Google veio a
Harvard para discutir a cópia de livros, quando eles começaram a digitalização.
Eles também foram à NYPL (sigla em inglês da Biblioteca Pública de Nova York) e
às universidades Stanford, do Michigan e da Califórnia.
Harvard disse que
eles poderiam digitalizar alguns livros -aqueles em domínio público, não os
protegidos por lei. Mas as demais universidades deram permissão para que
copiassem o que quisessem, e eles começaram a fazer isso.
A Liga dos Autores
e a Associação Americana de Editoras foram à Justiça contra a empresa. Após três
anos de negociação secreta, fecharam um acordo com o Google, mas a Justiça de
Nova York vetou, por entender que infringia a lei de direitos autorais.
Vamos
fazer diferente, não vamos ganhar dinheiro, queremos apenas servir o público com
livros abertos na internet.
Quantas bibliotecas e universidades americanas terão acervos digitalizados
na DPLA?Não tenho ainda um número certo, mas são milhares. Todas as
bibliotecas abertas para pesquisa no país estarão envolvidas. Mas levará tempo:
no início, serão todas as que já têm material digitalizado. Obviamente, todas
que tiverem coleções anteriores a 1923 poderão participar.
A DPLA poderá usar livros publicados após 1923, se autores e editoras
concordarem com a abertura das obras na internet, gratuitamente?Sim,
temos um programa para tentar convencê-los a ceder obras para a base da DPLA.
Muitos livros deixam de ser lidos após alguns meses no mercado; eles morrem.
Autores, claro, querem leitores. A maioria das obras não tem valor financeiro
cinco ou seis anos depois da publicação, e os proprietários dos direitos podem
ficar felizes ao ver seus livros disponíveis.
O fato de que as universidades e instituições envolvidas no projeto da
DPLA tenham visões diferentes sobre o futuro do livro e sobre como usar a
internet não é um problema?É um problema potencial. Mas há coisas sendo
feitas. Há uma coalizão de fundações, que vão nos prover dinheiro, e há as
bibliotecas e universidades, que vão disponibilizar os acervos.
Estamos
concebendo uma estrutura tecnológica que permita harmonizar todas as coleções
digitais em um mesmo sistema. Superada essa questão, será o momento de reunir
livros e coleções, por exemplo, do Alabama e da Dakota do Norte numa mesma base.
É muito trabalho.
O site já está funcionando experimentalmente, mas ainda não
há nada aberto ao público. No dia 18 de abril [de 2013] vamos lançá-lo com uma
cerimônia
na
Biblioteca Pública de Boston.
O governo norte-americano não apoia a DPLA?Não, é um projeto
completamente independente do governo, gerido por fundações privadas. Não há
envolvimento público.
A principal política, mesmo nas universidades privadas
como Harvard, é abrir as bibliotecas para compartilhar conhecimento intelectual
ao redor dos Estados Unidos e do mundo.
É difícil para as pessoas da Europa
ou da América Latina compreenderem, porque muita gente fora dos EUA, para tocar
esse tipo de projeto, depende do governo. Mas este é um país em que não devemos
ter fé no governo ou no Congresso para prover um bom serviço gratuito ao
público.
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